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sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Relacionamentos Contemporâneos – o mito da monogamia


Provocar uma reflexão nos temas: Ética (certo ou errado), da estética (a construção da obra de arte), da política (os despotismos em que se associam paixão e poder (religião)) e do conhecimento (qual é o papel do filósofo). A proposta de Marluce Moura é, juntar grandes temas filosóficos e culminar na sua exposição de artes visuais: Oferecer uma exposição inusitada sobre RELACIONAMENTOS CONTEMPORÂNEOS.
Talvez o que mais convenha salientar aqui, porém, são alguns pressupostos que Marluce utilizou para propor esta reflexão, cuidadosa e cativante. Mais que pressupostos, tratam-se talvez de opções bem conscientes. Primeiro, uma extrema atenção à imagem, à materialidade do significante. É uma perspectiva que podemos dizer oposta à da transcendência. Uma artista como Marluce, tão  peremptória em sua arte, provoca alguns de seus apreciadores a interagir com os quadros.
 O público com vocação mais espiritual, procura descobrir o que está por trás das imagens, como se fosse uma blasfêmia, tentando balbuciar uma carência do espírito. Pois a reflexão que Marluce efetua é, já por seu modo mesmo, antagônico a essa. O que ela ressalta na sua arte, por exemplo: são os comportamentos humano, numerosos, bons, sensuais. O próprio significado que eles tenham se deve buscar, antes de qualquer coisa, neles enquanto significantes. Não se salta a matéria, não se passa impunemente por ela.
Segundo ponto, uma grande atenção ao elemento cênico. Não apenas porque Marluce, numa exposição anterior tratou também de sexualidade de uma maneira cênica. Porque Marluce Moura consegue estar sempre conectada com a beleza, com a criatividade, harmonia e manter a energia necessária para que a vida seja um prazer contínuo.
Tratará na exposição uma abordagem atual. A base do seu estudo está numa idéia nova de relacionamento POLIAMOR. Tudo o que se afirma nas imagens se sustenta na observação da artista sobre uma suposta teatralização dos casamentos. Conceito, por sinal, apropriado as formas sociais do Antigo Regime. Podemos resumir a teatralização em dois elementos. O primeiro é que, se não se chega a proclamar um primado do significante sobre o significado, seguramente se exclui qualquer apagamento daquele em favor de uma suposta soberania deste segundo. Melhor dizendo: a atenção ao teatral exige igual atenção às formas e regras do convívio em sociedade. Para se usar uma distinção velha e imprecisa, mas ainda assim útil. Já o segundo ponto dessa observação reside no movimento que ela imprime às formas. Com efeito, não se trata apenas de formas, mas de cenários ou entrechos: e o fato de estarmos diante de um movimento indica muito bem o caráter produtor, ou produtivo, que é essencial à teatralização.
 A arte não esconde os fatos, dizendo de outro modo, a arte é tudo menos uma falsidade, e estar alem de costumes e regimes. Trata-se de um procedimento no qual extrema atenção se dá ao engate entre forma e conteúdo, significante e significado, operação e espírito. Ora, é justamente esse ponto de encontro - esse ponto de produção - que permite á Artista  mostrar como o mundo, o sadiano, se produz. neste tema que analisa
Tomemos então uma destas formas, a que abre a exposição: a do POLIAMOR. Marluce parte de Sade para pensar a própria história, o tempo mesmo no qual o autor escreve - e não o contrário. Isto ela faz, antes de qualquer coisa, testando em todas as direções os acontecimentos, fatos históricos e culturais.

O ponto de vista histórico é o do contexto: a obra se ilumina estudando-se seu entorno como um elemento que concorre para explicá-la. Já a abordagem filosófica parte de uma tautologia: mudança de época é movimento, portanto, na boa tradição do pensamento (herança cultural), como à artista Marluce Moura recorda em alusão aos portugueses da Renascença, a vida consiste procriar e formar família.
O essencial, todavia, está em fazer funcionarem esses - e outros - registros: em exceder, assim, os seus limites. Caso se contentasse com apenas um deles, a obra de Marluce padeceria de suas limitações: ficaria presa, por exemplo, a uma duvidosa relação da vida com a obra segundo o esquema da compensação ficcional das frustrações vividas, ou a uma explicação algo contestável do texto por seu entorno, ou contexto. A multiplicação dos pontos de vista praticada por Marluce deve então ser entendida como um modo de exceder essas limitações - não pelo recurso a uma simples justaposição de procedimentos nos quais um equilibrasse as deficiências do outro, ou a um excesso barroco de modelo de relacionamento que sonhassem efetuar um salto qualitativo; mas valendo-se de um olhar que, por ser o do prisma, procura dissolver a unidade do objeto, trabalhando-o em suas várias e mesmo antagônicas potencialidades. Ela não fala do quantitativo que pode ter no poliamor mas, do prazer que os poliamoristas sentem.
Ainda assim, do conjunto extraem-se resultados: não nos perdemos na dispersão. O recurso ao prisma é meio, não fim, desta obra. Por isso, termino salientando duas conclusões que aprecio particularmente no trabalho de Marluce. A primeira consiste no percurso iniciático. Aqui, a artista faz excelente uso da intersecção entre o comportamento e as religiões para, jogando com idéias correlatas aos ritos de passagem e de iniciação, trabalhar em vários níveis a noção de uma mudança. A obra de Marluce multiplica pontes, abismos, claustros, ilhas - lugares quer de passagem, quer de encerramento, mas que portam, todos, o sentido de uma transformação em curso, figurada pela translação espacial, e com frequência também o sentido de uma concentração que adensa as experiências novas reveladas na sua obra,focalizada na mudança da sociedade. Mas, ao mesmo tempo em que na própria obra vimos esses trajetos, sucede também em nós, público, alguma sorte de passagem, de iniciação ao poliamor. A exposição que promete derrubar o fim da monogamia se ela existir, apresentada por Marluce Moura na boa, ainda que recente, tentar derrubar tradição de um século que deu ao casamento uma popularidade e simpatia, não mais se arrasta na repetição ou monotonia de que tanto foi acusado :A maneira contemporânea de se relacionar. O poliamor torna-se o veículo de uma novidade, de uma revelação leiga para alguns, e uma afirmação para outros que já aderiu e que acredita que esse modelo de relacionamento já estar inserido na sociedade há séculos.

Aqui, a segunda conclusão. Apostando no materialismo de suas obras sobre o poliamor, Marluce Moura Matos pode então libertá-lo da imagem assustadora que dele construíram os séculos XVIII e XIX. Não, é certo, para compor um modelo antagônico de sociedade. Mas serve para causar um incomodo numa camada da sociedade bem-pensante, por exemplo, o modelo atual incompreendido da liberdade sexual. Negar-lhe não é o caminho, e sim, se adaptar. Mas é preciso afastar os preconceitos, sair do plano do bem e do mal,do certo ou errado para apreender o vigor sensual de uma obra como a de Marluce. Dizendo de outro modo, é a perspectiva resolutamente materialista de Marluce na sua arte que abre caminho para uma leitura da realidade que fará mais justiça ao erotismo sadiano do que as leituras assustadas do passado. Para esse tema expor toda uma sensualidade era pois necessário, esposar os ritmos do pensamento; sem o pudor, que é de suma importância para essa exposição de arte, não será legível o erotismo, que é da fantasia de quem interagir com as telas. Um repertório de alguns temas seletos assim se mostra especialmente rico para se ingressar no pensamento e causar uma reflexão. E, para terminar numa exposição como esta de arte contemporânea:  o prazer que se tem em ir a vernissage deverá tanto ao prazer que teve a artista em pintar.

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Feirense, graduada em Administração, e artista plástica  especialista no desenho retrato com uma abordagem realista e sóbria, que utiliza exclusivamente a técnica do pastel, iniciou nas artes ainda na infância tem como foco fundamental a expressão dos rostos, seus temperamentos e a psicologia da expressão, a tradução de um sentimento, de uma emoção fugidia e instantânea. Começou a expor em 1996 após concluir o curso no Centro Universitário de Cultura e Arte (Cuca), é uma das fundadoras do Grupo de Arte contemporânea de Feira de Santana, pesquisadora da arte rupestre com exposição desse tema em 2007, e amante da arte contemporânea, na qual aborda temas polêmicos.
"Só me dirijo às pessoas capazes de me entender, e essas poderão ler-me sem
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